E a Intel entra no mercado móvel

Tsuharesu Luciel 14 de fevereiro, 2012 10

Pelo que andei lendo, faz pelo menos uns 7 anos que a Intel vem falando que vai entrar no mercado móvel, dominado atualmente por smartphones e tablets mas até agora nada. Eles tentaram despontar na Google TV, mas o dispositivo apareceu com tantos problemas que nem nisso eles deram sorte. Claro, agora as coisas vão melhorar para a Google TV, mais parceiros, suporte a ARM e todas essas coisas. É um segmento que continuará tendo seu nicho.

O mercado atual de smartphones e tablets é dominado por uma arquitetura apenas: a ARM. Isso não quer dizer que apenas uma empresa faça os processadores, mas que todos os processadores seguem um padrão definido por uma empresa. Isso tem seus pontos positivos e negativos, claro. A ARM, que dá nome a arquitetura dos atuais processadores para aparelhos móveis, é um empresa que apenas designa como será a arquitetura e vende para outras empresas fazerem. Assim as empresas podem modificar um pouco a arquitetura e ter seus próprios processadores, como a Nvidia, a Samsung e a Apple. Com a entrada de uma outra plataforma isso significa que a competitividade vai elevar nossos padrões, vai trazer muitas novidades, e podemos esperar uma queda nos preços também.

O Android sempre foi um sistema exclusivo para processadores com arquitetura ARM, mas desde Setembro do ano passado a Intel e o Google disseram que iriam otimizá-lo desde o Gingerbread para que rodasse bem em processadores x86. Isso tudo é graças a natureza dinâmica do Android, diga-se de passagem. Graças aos aplicativos rodarem em cima de uma máquina virtual, tudo que é necessário é uma otimização no Kernel do sistema, e as coisas continuarão rodando igual para qualquer plataforma. Isso na teoria é claro.

A Intel apresentou na última CES a plataforma Medfield, que terá a incrível capacidade de rodar Android, vejam só. Assim temos a Intel, uma empresa super conceituada e inovadora em sua área, abraçando um mercado emergente que cresce cada dia mais e já demonstra um poder incrível para geração de lucro. Não apenas isso, mas é um mercado que inclusive está ameaçando os outros mercados que a Intel insistia em se focar. Veja quanto tempo durou a festa dos netbooks? Tempo o bastante para a Apple surgir com o iPad e criar um mercado novo a avassalador. Inclusive, na apresentação do tablet da Apple, o mesmo foi situado em uma categoria que ficava entre smartphones e notebooks já desconsiderando a existência dos ‘mini netbooks‘.

A Intel é uma empresa inteligente. Ela dá um jeito de estar em todo novo segmento. Na de netbooks ela estava com os processadores Atom super eficientes. Agora que o mercado de smartphone e tablets está em alta e já sabemos que está vindo para ficar. A Intel quer uma parte dele. Não apenas isso, mas como dito, quer tirar a hegemonia da única arquitetura existente no mercado. A Intel agora trará todo seu know-how de processadores para o mercado móvel, provavelmente não sem alguns trancos no caminho.

O que eu acredito ser a principal dificuldade para a Intel será a questão de eficiência energética nos aparelhos. Querendo ou não a Intel estava em um mercado onde a oferta de energia era muito maior. Desktops estão a todo momento ligados na energia, e notebooks tem a possibilidade de fazer isso também. Os netbooks tem uma duração assombrosa de bateria, isso é inegável. Mas eles não tem um poder assombroso. Os únicos notebooks que vejo terem um bom poder e uma duração legal de bateria são os Macs.

Diversas análises sobre a [plataforma] Medfield dizem que ela está preparada para concorrer com os ARMs que já existem no mercado hoje. Em termos de benchmark ela teve um bom desempenho, mas apenas na comparação em testes que não usavam processamento paralelo, como a renderização de páginas web. Poderiamos dizer que foi uma “trapaceada” mostrar benchmarks desse tipo. Mas sejamos realistas: o que vai usar tanto processamento paralelo que não seja um jogo? Abaixo temos alguns testes feitos. Podem ver que em termos de processamento de núcleo único a Medfield ficou muito boa. E em processamento para coisas “normais” ela não ficou tão atrás: quase o mesmo que um Galaxy S II.

A placa gráfica do Medfield também não impressiona muito, sendo uma versão bastante antiga (para os padrões tecnológicos atuais); sendo assim, a Intel já tratou de dizer que até o final do ano pretende estar com uma placa gráfica melhor, e com a arquitetura pronta para os dual-core. Tudo mil maravilhas, mas… e os apps? Terão que ser refeitos?

Graças a arquitetura do Android cerca de 75% dos apps não precisarão alterar uma linha de código sequer. Se você ainda não sabe como tudo funciona, é bom ter uma aulinha sobre a Dalvik. Os aplicativos Android rodam em cima de uma máquina virtual, a Dalvik. Sendo assim, apenas uma modificada no kernel do Android ou algumas outras mudanças no código nativo e todos os apps rodarão sem nenhuma mudança. Isso para aplicativos que utilizam o código normal do Android – que se parece muito com Java. Os aplicativos que se utilizam de códigos nativos (NDK) terão que sofrer mudanças, ou se apoiar em uma tecnologia que a Intel vai fazer. É uma espécie de “tradutor binário”, que vai pegar o código desenvolvido para ARM e traduzir para a plataforma x86. Com isso, com certeza teremos uma perda de performance. No entanto a Intel ainda está otimista, e fala que essa conversão garantirá em torno de 90% de compatibilidade dos aplicativos. Todo o resto que não funcionar deverá passar por uma pequena reescrita. Pelos valores porcentuais otimistas, não esperamos grandes trabalhos para isso.

Isso gera a (famigerada e temida) fragmentação, ou como diria nosso Eric Schmidt, “diversificação” no ecossistema com um todo. Não bastasse a Nvidia com sua ideia de processadores super poderosos e com títulos exclusivos, agora a Intel vai fazer o mercado ficar ainda mais diversificado com sua leva de processadores. Acredito que o consumidor final comum não vai se preocupar muito, mas para os gamers… bom, espero que a Unity e a Unreal já estejam pensando em algo, porque jogos usam bastante código nativo para ficar mais rápidos. E se um jogo não chegar em um aparelho por causa do processador, as coisas vão ficar complicadas. Ou então o Chainfire vai criar uma ferramenta de emulação de processador. Por hora vamos acreditar que o mundo é azul e que tudo é maravilhoso.

Uma informação importante na estratégia da Intel é que ela não vai (apenas) sair fazendo um monte de processadores e vendendo para qualquer empresa. Ao que parece, ela quer criar aparelhos modelos e esses aparelhos modelos já estarão prontos para o uso. Ao invés de dar um processador para as empresas começarem a trabalhar em cima, arrumar o Android e todo esse processo demorado, a Intel vai dar um aparelho com tudo pronto. Além de uma padronização entre todos os aparelhos x86, essa questão pode ajudar no time-to-market dos aparelhos. As empresas parceiras podem pegar o aparelho, fazer modificações na parte externa ou na cara do Android e já colocar para vender.

Isso abre uma pergunta: se houver essa padronização para todo o hardware do aparelho, será que teremos atualizações mais frequentes? Acho que nem é o caso de fazer esse pergunta nesse artigo. Pulemos.

E essa estratégia já começou a render frutos. No mesmo evento tivemos a apresentação de Sanjay Jha, CEO da Motorola, e da Lenovo, ambas falando de seus aparelhos com a Intel. A Motorola disse que tem um contrato de vários anos e vários aparelhos com a Intel. A Lenovo saiu na frente e vai lançar o Lenovo K800 na China já com o novo processador.

A parceria com a Motorola mostra que grandes empresas estão apostando na nova arquitetura. A Motorola, principalmente agora sendo do Google, não iria assinar um contrato desse apenas porque será uma vibe usar processador x86 ou para testar se isso vai dar certo. Com certeza eles sabem o que espera por aí e com certeza eles sabem o que a Intel fez no Medfield. Se não me engano, temos um tríade super poderosa aqui: Intel, Google e Motorola. E ainda temos a Intel levantando uma empresa nem tão famosa aqui no Ocidente. Levantando eu digo porque, imagina quanta gente não vai comprar esse K800 só pra ver qual é a dos processadores x86 no Android?

Esse é o mundo móvel seguindo os moldes do mundo PC. Já temos uma visão de Android rodando em smartphones e tablets x86. Logo mais quando ficar estável veremos tablets sendo vendidos com Windows 8 e Android. Ou pessoas pegando seus tablets com Windows 8 e fazendo dual boot com Android. E veremos o iPad seguindo em outro mercado, isolado do mundo todo ou logo permitindo dual-boot como Macs permite e poucos fazem. E aí teremos a tríplice Windows, Linux e Apple mais uma vez no mundo, com aparelhos para todos os gostos e bolsos.

E você, o que acha da Intel chegando no mundo móvel? Será que vai ser bom para todo mundo ou só vai bagunçar mais? Um processador bem melhor ou mais do mesmo? Não fique sem comentar, é bem rápido e vamos saber as expectativas de todos.

Fonte: Android And Me, Engadget, Ubergizmo, Anandtech

  • http://twitter.com/rafaccb RafaelCCB

    Excelente matéria!

  • http://www.euandroid.com.br Willen

    O Tsu tava inspirado! Ótima matéria mesmo.

    • http://www.euandroid.com.br Tsuharesu Luciel

      Vish.. ficou gigante hahaha

  • Murriac

    Matéria bem explicativa… parabéns…

  • Fmrbessa

    Respondendo a pergunta do último parágrafo,como usuário comum…só espero que os preços dos dispositivos caiam!!

    • Lucas Herrera

      Com a intel fabricando processadores? Acho difícil.

  • http://twitter.com/wiltonlazary Wilton Lazary

    Para o problema de compatibilidade binaria existe solução, http://llvm.org/ é o caminho natural ao invez de mandar o codigo binario mandar um codigo pré compilado e deixar o dispositivo gerar o binario final otimizado

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  • Nick Oktia

    Ótima matéria!
    Respondendo à última pergunta, uso um Motorola Xoom (Tegra 2 – OC 1,5Ghz) e pelo que li em um site, a Nvidia está criando um processador ainda ais poderoso que o Tegra 3. De qualquer forma, uso muito meu tablet para jogar e acho que a Intel com um processador one core não irá se beneficiar com isso, já que o mercado de jogo do Android continua crescendo, mais pessoas tendem a substituir um Console por um tablet, assim como eu, pois os tabs são tão poderosos quanto e mais portáteis :D (já joguei Modern Combat 3, Shadowgun e Backstab numa TV de 42″ com um cabo HDMI no Xoom, foi muito bom :D:D:D). Por isso acho que será apenas mais um processador a tentar competir com o imbatível Tegra 3.

    E só para constar… Eu fiz 7195 pontos no AnTuTu Benchmark, tornando o meu Xoom apenas pior que o Asus Transformer Prime nessa lista ;)